sábado, 18 de abril de 2009

Capítulo 18

No templo, sentado em um dos longos bancos de mogno do local, o sacerdote os aguardava. O dia estava muito próximo de amanhecer. Logo Loril, a estrela amarela que iluminava as Terras de Lhu, romperia noite. Seus raios luminosos invadiriam a escura edificação pelos vitrais coloridos das janelas.
— Encontraram? — perguntou o sacerdote ao mesmo tempo que se levantava.
— Sim — respondeu Mentati. — É hora de conectarmos as peças ao Olho de Tullging.
— Não confie no sacerdote! — sussurrou o mago do vento próximo a orelha pontuda da elfa.
— Chega! Não gosto de intrigas bruxo! — Mentati o empurrou para longe.
Antes que uma discussão se iniciasse, Batel Horm viu um corvo voar da cabeça de pedra do deus do trovão. A ave agourenta grasnou de forma estridente. O voou do pássaro terminou no ombro do mago dos ventos. O humano com um bote de sua mão esquelética tentou apoderar-se do Olho de Tullging que permanecia em um colar em volta do pescoço da elfa. Mentati perita em artes marciais desviou facilmente da investida atrapalhada do falso companheiro.
— Por que não se une comigo, Mentati? Poderíamos ter sido bons amigos! — o mago tinha um olhar malicioso na face obscura.
Nenhum dos presentes estava entendo a reação inesperada do mago. Ele disse furioso, enquanto o corvo grasnava em seu ombro:
— Não me olhem com essas caras de espanto, lacaios!
O brilho do seu olhar era sádico:
— Nenhum de vocês tem a mínima chance contra Gideon, o maior de todos os abençoados anciões de Lhu. Meus corvos já trouxeram a mensagem que eu esperava!
— Que mensagem? — o sacerdote tentou tirar alguma informação do imprudente mago dos ventos.
— Não existe motivo pra esconder qualquer coisa de vocês, pois logo estarão ardendo nas chamas do bafo quente de meu mestre. Os corvos me informaram que Gideon está chegando em Dartmor, por isso não tenho mais nada a temer. Não sobrará pedra sobre pedra dessa cidade fedorenta. A noite do dragão se aproxima, finalmente!
Pelos belos vitrais, a luz de Loril penetrou no Templo das Divindades. Estava amanhecendo na cidade de Dartmor.
— Não esqueçam do meu nome! Ele deve ficar marcado. Sou o Bruxo dos Corvos — disse o mago dos ventos.
Tão logo a luz de Loril se fez presente, uma nuvem de corvos invadiu o templo pela torre do sino. As aves enlouquecidas eram dominadas pela força de vontade do bruxo. O eco de seus grasnados poderia irritar qualquer um.
Batel Horm com seu machado tentava espantar as aves agourentas que queriam bicá-lo. Mentati decidiu entregar o Olho de Tullging e a peça da águia para Glimbertrix que estava mais próximo. Ela confiava no gnomo. Seguia os seus instintos e dificilmente falhava.
— Entregue ao sacerdote. Encaixem as peças do amuleto. Vou dar uma lição nesse traidor — disse a elfa, indignada.
Glimbertrix correu até o velho:
— Por favor, me entregue a peça da serpente! Sou bom em montar engrenagens. Farei isso em um instante.
O velho magricelo e de barbas longas pegou de dentro de um bolso do pijama azul a peça da serpente e a entregou ao gnomo. Levantou o báculo de cristal, era hora de neutralizar o poder daquele bruxo atrevido.
Glimbertrix se escondeu às costas do sacerdote, enquanto concluía a tarefa de armar as peças nos seus devidos lugares. Não foi uma tarefa difícil, já estava acostumado a esse tipo de brincadeira. Durante a infância sempre gostara de montar engenhocas. Primeiro colocou o Olho de Tullging em uma posição no centro da escultura em forma de águia. Depois, ele encaixou as duas peças conectadas dentro da escultura que representava a serpente. Pôde escutar o barulho de um “click”. Enfim, as três partes do amuleto estavam unidas.
Mentati correu na direção do revelado inimigo. Com um salto, a perna direita em riste teve a intenção de chutar o rosto dele. No entanto, atingiu uma espécie de escudo. Um pequeno tornado havia se formado ao redor do humano.
O Bruxo dos Corvos levitou a mais de dois metros de altura e disse:
— Não pensou que meus poderes já tinham acabado, minha bela elfa? E quanto a você sacerdote, acha que poderá enfrentar meus poderes?
— Nesse templo, somente os deuses são maiores do que eu! — respondeu o velho do pijama azul.

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