sexta-feira, 20 de março de 2009

Capítulo 13

Glimbertrix para responder a pergunta do velho queria se aproximar dele. Tinha a intenção de entrar no recinto. Mas foi interrompido.
— Não entre aqui criaturinha! — avisou o sacerdote.
O homem de longas barbas brancas levantou da cama e calçou pantufas azuis da mesma cor do pijama que vestia.
Glimbertrix sem querer escancarou a porta. Todos viram a aparência cômica que o pijama conferia ao velho. Batel Horm segurou uma risada entre os dentes.
— Ninguém respeita mais o sono de um velho sacerdote?
— Ora, desculpe! — disse o gnomo envergonhado.
O velho abriu a porta de um armário embutido à parede. Foi quando o mago do vento o ameaçou:
— Se tentar qualquer coisa contra nós, eu acabo com você.
— Não diga asneiras, filho!
Com o auxílio do bordão de cristal, o sacerdote realizou uma magia eficaz de choque. Um raio azul partiu da ponta do objeto e atingiu o mago do vento que tremeu dos pés a cabeça. O homem caiu no chão. Uma cor azulada e branca percorreu pelo seu corpo durante mais alguns segundos. Enfim, a energia se desvaneceu.
— Aprenda, filho. Não seja arrogante na casa dos Deuses — disse o velho em tom de sermão.
Mentati ajudou o mago do vento a levantar. Depois do choque que recebera, o homem manteve-se calado tentando conter a tremedeira do corpo. Seus dentes batiam uns contra os outros, enquanto a mandíbula tremia.
De dentro do armário o sacerdote pegou um pesado manto, também de cor azul, porém um pouco mais escuro do que o resto da vestimenta. Colocou a pesada peça de lã sobre os ombros.
— Está muito frio fora da cama — disse ele.
Era visível o medo que os companheiros adquiriram do sacerdote depois daquele ato mágico que envolvia a energia azulada. Glimbertrix resolveu falar com todo o respeito possível:
— Desculpe nossa intromissão, senhor sacerdote! Vou ser sincero, talvez isso nos ajude.
— É melhor que expliquem direitinho o motivo dessa invasão! Do contrário eu fritarei os miolos de todos vocês. Ouviram bem?
— Sim, senhor! — respondeu Glimbertrix.
Os outros três pareciam enfeitiçados. Nem uma palavra sequer saia de suas bocas.
— Estou a serviço de um homem. Contratei esses camaradas para me ajudarem a encontrar um amuleto.
O gnomo revelava a missão sem receio algum. Parece que estava dominado pela vontade do sacerdote.
— Continue! — o velho fez um gesto rápido com a mão.
Glimbertrix sentia vontade de contar tudo o que sabia:
— O amuleto é uma arma letal.
O gnomo tinha a sensação de que o velho sacerdote investigava sua mente. Continuou a falar sem pausa:
— Juntando as duas partes do amuleto, nós poderemos matar o dragão negro.
O sacerdote o interrompeu:
— Na prática isso não se torna uma tarefa fácil! E além do mais, você está esquecendo que tem de ser acoplado ao amuleto uma pedra vermelha de propriedades especiais.
— Fale-nos um pouco sobre a tal pedra especial — pediu Mentati. Agora conseguindo falar.
— Existem algumas delas espalhadas pelas Terras de Lhu. A última de que tenho notícia servia de enfeite para um homem-javali.
— O Olho de Tullging — disse a elfa.
— Isso mesmo! — o sacerdote se impressionou com o conhecimento dela.
Mentati abriu um botão da gola de sua camisa esverdeada e mostrou a todos uma pedra vermelha, e disse:
— Eu possuo o Olho de Tullging. Tenho instruções de meus superiores para montar o amuleto e com o artefato liquidar o dragão negro.
— O que você sabe sobre os dragões negros, elfa? — quis saber o sacerdote.
— Não muito! Mas sei que esse dragão ancião, do qual Glimbertrix falou, está disposto a abrir um portal mágico. Na teoria que a criatura desenvolve, um túnel será aberto entre as galáxias, tornando possível viajar para outros planetas. Mesmo o Alto Mago Paramidas não sabe como realizar a passagem sem causar distúrbios no espaço-tempo. O dragão pode causar uma explosão catastrófica no momento em que conjurar a magia. Ou seja, a criatura é uma ameaça para todas as formas de vida das Terras de Lhu. Por isso, deve ser eliminado.
— E o que falta para que o dragão realize essa façanha de alto risco? — se atreveu a fazer uma pergunta Batel Horm.
— O próprio Olho de Tullging! Tenho notícias que Gideon, o dragão negro, enviou seus lacaios a caça do Olho na cidade élfica da Folha Dourada. A busca foi frustrada. Seus espiões circulam por algumas cidades de Lhu. Com certeza, é por causa da pedra que os ciclopes me procuravam. Até mesmo a imperatriz deve estar preocupada com as idéias malucas do dragão.
— A imperatriz almeja o poder completo. Duvido que o dragão não seja sua próxima vitima — falou Batel Horm.
— Sem o Olho de Tullging é uma tarefa complicada se livrar de Gideon, mesmo para a imperatriz. Todos sabem que não é fácil acabar com um dragão ancião. Simples armas não funcionam contra eles. Não é à toa que são chamados de abençoados. A maioria das pessoas acredita que eles são apenas lendas. Faz tanto tempo que se exilaram do convívio com as outras criaturas racionais. Vale dizer que os abençoados conhecem um sem número de magias incríveis — concluiu Metati.
— A pedra deve ser protegida por nós meus caros. Ao menos até que alguém se habilite a dar cabo do dragão — decretou o sacerdote.
— Meu contratante é a pessoa certa. Por isso estou aqui. Vou levar para ele o amuleto com a pedra — falou com convicção Glimbertrix.
— Não posso deixar que você leve o amuleto e muito menos o Olho de Tullging, Glimbertrix — disse Mentati. — Fui selecionada para essa tarefa pelos meus superiores. Todas as formas de vida nas Terras de Lhu correm perigo.
— Vim para cumprir minha tarefa, elfa! — o gnomo se tornou ríspido em uma atitude de confronto.
O sacerdote pressentindo uma eminente disputa entre o gnomo e Mentati teve de tomar uma decisão. Aproximou-se de uma escrivaninha no canto do quarto. O móvel estava abarrotado de livros, pergaminhos, penas de ganso para escrever, uma ampulheta e diversos potes de tintas coloridas. Abriu uma gaveta e de lá pegou um objeto.
— Aqui está o que procuram!
Na mão do sacerdote estava uma das partes do amuleto.
— A peça da serpente! — disse admirado Glimbertrix.
O mago do vento se aproveitou da distração do grupo para se afastar do quarto. Saiu sorrateiramente e se posicionou nas sombras ao lado da estátua do homem que segurava uma espada.

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