sexta-feira, 26 de setembro de 2008

34. O calabouço

Um dos ciclopes com exagerada truculência jogou Hylana em uma cela fria. A prisão localizada no calabouço do grande castelo de Carmal não tinha janelas. O mundo exterior ficava bem longe dos olhos e dos ouvidos dos presos. Em um canto úmido, havia um colchão rasgado, no qual Hylana se deitou. O corte em sua cabeça latejava deixando-a tonta. Precisava descansar. Tinha de estar refeita para, no dia seguinte, responder da melhor forma possível às perguntas de Rankgor ou de qualquer inquisidor. Não queria mofar naquele lugar maldito.
Jamal estava morto, e o necromante conseguira pegar a adaga de mármore. Mais uma vez, Hylana tinha sido uma tola. Não devia ter ido à casa do feiticeiro. Movida pela vingança, a garota sempre escolhera os piores caminhos a serem trilhados. Agora estava naquele lugar imundo que fedia a fezes e urina. Ao menos estava só. Não a tinham colocado em uma cela com outros indivíduos. Fechou os olhos para colocar as idéias em ordem. O cansaço que sentia, por fim, a venceu. Dormiu mais uma noite agitada e sem sonhos.
A garota foi acordada, depois que dormira horas e horas seguidas, pelo barulho da grade de sua cela sendo aberta. Nesse momento, uma anã e um gnomo das pedras ígneas, quase foram jogados sobre ela. Os dois protestaram pelo tratamento que recebiam dos guardas.
A anã gritava:
— Não tenho culpa alguma da revolta do povo.
— Não somos criminosos — disse o gnomo.
— Fiquem quietos. A sacerdotisa decidirá — disse um dos guardas.
Os ciclopes deram as costas aos dois e seguiram pelo corredor. Hylana levantou e se aproximou das grades da cela, de onde pôde ver outros indivíduos sendo encarcerados.
— O que está havendo? — a garota perguntou com evidente preocupação.
— A cidade está de pernas pro ar... — respondeu o gnomo, sentado em um canto da cela.
— O rei está morto — completou a anã de cabelos longos e desgrenhados.
Hylana ficou pálida ao receber aquela notícia. Glup não tinha visto coisas sem sentido quando olhou no interior do orbe. Dias ruins estavam por chegar as Terras de Lhu depois da morte do rei. Ao menos, era isso que o pequenino rosado havia dito.
A anã continuou falando:
— Com o rei morto, deveria assumir em seu lugar a rainha. No entanto, a mulher padece de uma doença desconhecida há alguns dias. Sobra o pequeno Felipe, que não passa de uma criança. O garotinho não tem idade suficiente pra governar.
— Sem nenhum parente pra assumir o trono... — continuou o gnomo. — A sombria sacerdotisa, braço direito do rei, deve cumprir esse papel temporariamente em Carmal. Ao menos, até que a rainha se recupere, ou que o pequeno Felipe atinja a idade suficiente para realizar essa tarefa.
— Muita gente se revoltou com as notícias dadas hoje pela manhã. O povo não está conformado com a morte do rei e muito menos com o fato da sacerdotisa assumir o poder. Roubaram o meu estabelecimento... — disse a anã.
— E tocaram fogo na minha barraca da feira... — contou o gnomo.
Os dois continuaram falando, mas Hylana não conseguia mais prestar atenção neles. Somente pensava nos presságios que Glup havia lhe revelado. E lembrava que a salvação dos habitantes das Terras de Lhu passava pela ressurreição do feiticeiro Ansalon.

domingo, 21 de setembro de 2008

33. A arte da necromancia

O clarão que se dissipou do cajado tinha lhe cegado por uns instantes. A adaga já não estava mais em seu poder. Esfregou os olhos para tentar enxergar novamente. Quase ao mesmo tempo de recuperar a visão um barulho grave anunciava a queda de algo pesado no chão.
A primeira coisa que viu diante de si foi Jamal. A adaga de pedra, o grande objeto de desejo do necromante, estava fincada no pescoço do bárbaro que não conseguia se desvencilhar das correntes e das algemas. O sangue escorria da sua garganta aos borbotões. A expressão em sua face era de terror. Hylana, então se ajoelhou ao lado dele na tentativa de ajudar. Do chão juntou a chave de ferro que poderia abrir o cadeado das correntes, mas antes que pudesse fazer algo, sentiu uma mão pegajosa e forte tocar no seu ombro.
— Acabe com a maldita! — Jirred gritou.
Histérico, e com os cabelos desgrenhados, o necromante apontava para a garota. Antes de saber o que havia lhe pego pelos ombros, Hylana foi arremessada contra uma das paredes da sala. Quase desmaiou de tanta dor. Colocou a mão na cabeça e sentiu sangue escorrendo de um corte. O peso de um caminhar, no centro da sala, lhe chamou a atenção. O ogro que minutos atrás não passava de um defunto dirigia-se a passos lentos, mas decididos na direção dela.
A arte da necromancia se prestava para aquele tipo de coisa medonha: ressuscitar os mortos. Na prateleira, ao lado de onde Hylana tinha se estatelado, as criaturas mortas dentro dos vidros com formol se debatiam animadas por aquela força estranha que emanou do cajado de ossos. A garota levantou-se e sacou sua inseparável katana:
— Fique aí mesmo, ogro. Ou terei que te mandar de volta pras trevas. Tenho certeza de que você não vai querer voltar pra lá, não é mesmo?
Jirred, ensandecido, gargalhou:
— Ele só obedece a mim, garota estúpida! Morra, maldita, e talvez eu também te transforme em uma escrava perfeita.
Ao escutar aquela ameaça, um arrepio de medo e nojo percorreu o corpo de Hylana. O necromante correu até o local onde padecia Jamal. Jirred arrancou a adaga do pescoço do bárbaro, sem qualquer cuidado e disse despreocupado:
— A morte é apenas o princípio, meu filho. Não tema! Voltaremos a nos encontrar.
Afogado no próprio sangue, Jamal respirou pela última vez.
Ao mesmo tempo, o ogro-zumbi se aproximava de Hylana e com um soco no peito a derrubou no chão. Surpreso, o zumbi viu a katana enfiada em sua garganta. A garota era tão rápida com sua arma que o ogro não havia percebido imediatamente o golpe. A espada espetada na criatura diminuía seus movimentos e causava um pouco de dor, mas nada além disso. Não era tão fácil matar uma coisa que já estava morta. Somente a decapitação acabaria com o ser grotesco definitivamente. Hylana sabia disso, já havia escutado histórias terríveis sobre os mortos-vivos que caminhavam durante a noite nas vastas Terras de Lhu.
Voltou sua atenção para o momento presente ao ouvir batidas fortes na entrada da casa e também ordens de invasão. A porta foi arrombada com um baque. Ciclopes invadiram o lugar. Atrás de dois batedores surgiu um famoso elfo de pele cinza, capitão da guarda real de Carmal. O necromante, sem esperar intimações, fugiu pela mesma porta de onde havia buscado Jamal, a adaga de mármore estava em seu poder.
— Peguem esse fora-da-lei! — ordenou o capitão Rankgor.
A arte da necromancia era proibida em Carmal. Mesmo assim, as autoridades, muitas vezes, faziam vista grossa para esse delito. Talvez os guardas houvessem descoberto mais crimes de Jirred para terem invadido sua casa-laboratório de forma tão intempestiva.
Ciclopes foram no encalço daquele desprezível. Outros quatro se jogaram com martelos e machados sobre o ogro-zumbi. Sangue negro saltou do corpo do servo de Jirred quando foi decapitado pelos guardas.
Hylana viu o capitão Rankgor agachado, a mão analisando o pescoço de Jamal. A primeira reação dela foi fugir, não queria ser presa. Porém, antes que pudesse concretizar a fuga, os guardas restantes já estavam colocando algemas em seus punhos.
— Tragam-me o necromante! — Rankgor ordenou aos ciclopes que haviam eliminado o ogro-zumbi.
Os guardas correram em direção à porta por onde Jirred havia escapado. O capitão se aproximou de Hylana. Depois da morte do zumbi, somente o barulho sinistro das criaturas se debatendo dentro dos vidros de formol podia ser escutado.
— E você, quem é? — Rankgor perguntou a ela.
— Sou Hylana — respondeu depois de um momento de hesitação.
— Ah, Hylana. Eu sei quem é você. Nossa primeira suspeita de ter dado cabo do velho Eliseu.
— A primeira?
Exato. Já tínhamos descartado a possibilidade de você ter ajudado o tal Jamal na concretização do crime. No entanto, sua presença aqui pode me fazer mudar de idéia.
Hylana ficou surpresa com aquela novidade. Jamal tinha assassinado Eliseu. O banguela era uma figura tão sem importância para ela que não tinha dado conta de fazer essa associação. Mas agora se tornava óbvio. Ela imaginava por quê. Eliseu era um dos poucos que poderia desmascarar a imagem que ela idealizava do bárbaro. Antes que desse com a língua nos dentes, Jamal acabara com ele. Era essencial para a concretização do roubo da adaga de mármore que Hylana continuasse confiando cegamente no bárbaro.
— Não tenho nada a ver com isso, capitão. Não conhecia esse lado obscuro do meu ex-namorado. Nunca soube de crime algum dele dentro das jurisdições de Carmal.
O elfo cinza demonstrava no semblante que não acreditava nela. Desviou o olhar pra o corpo estendido de Jamal:
— É uma pena que não poderemos jogá-lo em uma prisão ou torná-lo diversão na arena das feras. Nesse instante, ele já dorme no berço das trevas!
Hylana sentiu-se profundamente deprimida. Por que as coisas tinham de terminar daquele jeito?
— Foi você quem o matou? — perguntou de forma direta e seca, Rankgor.
— Não. Foi o próprio pai. O necromante.
Aquela era a verdadeira resposta. A luz emanada do cajado de ossos precipitou a ação de Hylana. Foi por acidente que ela atingira a adaga no pescoço de Jamal.
— Talvez você possa nos ajudar a montar algumas partes do quebra-cabeça que ficaram sem resposta.
— Não sei no que poderei lhe ser útil.
Hylana não podia contar toda a história. Se falasse sobre a adaga de mármore, com certeza, seria entregue à lei dos monges espadachins, e o código de leis deles era rígido.
— Você parece reticente, garota. Desde já poderia ter ficado sem essas algemas — blefou Rankgor para ver a reação de Hylana.
A garota permaneceu em silêncio feita uma estátua de bronze.
- Preciso que colabore. Uma noite no calabouço e você dirá toda a verdade. Levem-na — ordenou o capitão.
Antes de sair da casa do necromante, Hylana escutou um dos ciclopes relatando que Jirred havia escapado por uma saída secreta. De certo o necromante seria caçado pelas ruas de Carmal como se fosse um rato.

sábado, 13 de setembro de 2008

32. Confissão

Jamal e Jirred entraram no aposento onde Hylana os aguardava. O necromante trazia na mão direita um cajado de ossos. O objeto era composto por quatro fêmures. Colados por uma substância negra, os ossos permaneciam conectados. Na ponta, uma pedra verde ornava aquele artefato sinistro.
Jirred ordenou que Jamal fosse até o local onde estava Hylana. Devido as correntes presas ao tornozelo, o homem de cabelos compridos e desgrenhados caminhou com dificuldade. Algemas prendiam seus punhos.
— Não tentem nada de estranho — Jirred ameaçou.
— Que bom te ver, querida — disse Jamal esboçando alegria.
A garota manteve o semblante sem pronunciar qualquer coisa.
Jamal um homenzarrão repleto de músculos vestia uma roupa de pele de urso com um cinto de couro e estava descalço. Se aproximou de Hylana sempre bem devagar. Ela, por sua vez, pegou a adaga.
— Onde estão as chaves das algemas? — ela quis saber de Jirred.
— Não se atreva a tentar alguma loucura. Depois que soltar seu namoradinho, me entregue a adaga!
O necromante jogou a chave de ferro e Hylana a pegou no ar.
— Vire-se! — ela disse pra Jamal.
Jamal ficou de costas para que Hylana pudesse soltar as correntes. Foi nesse momento que o bárbaro teve uma surpresa. Com grande agilidade, Hylana pressionou a extremidade pontuda da adaga de mármore na jugular do ex-namorado.
— Vocês pensaram que eu continuaria sendo uma idiota pro resto da vida?
A expressão de Jirred era de susto. Hylana pegou Jamal pelos cabelos compridos e puxou para que ele se virasse na direção dela. Os olhos dele denunciaram medo. Afinal, estava preso. Não tinha como se defender. E além do mais, sabia do que as mulheres eram capazes quando traídas. Tornavam-se perigosas e cometiam qualquer loucura.
Diga, crápula, por que me enganou?
Jamal permaneceu quieto tentando olhar para o feiticeiro com o canto do olho. Um fio de sangue já lhe brotava da garganta.
— Não faça nenhuma besteira, Hylana. Afaste o punhal da garganta de meu filho — Jirred, agora não se preocupava em esconder a verdade.
— Vocês dois, nenhum merece viver. Me manipularam direitinho. Eu fiz tudo o que vocês planejaram. Por quê?
— Só você, minha querida, podia entrar na casa de Ansalon e roubar o orbe. Aquele feiticeiro idiota não confiava em mais ninguém.
— Você não devia ter mentido sobre a morte de meus pais, Jamal! Eu te amava — disse Hylana para o bárbaro, pressionando ainda mais a adaga em seu pescoço.
— Em primeiro lugar, menina, Jamal a conheceu somente para executar os planos da sacerdotisa. Eu e meu filho somos apenas peças em um jogo de feras.
Jirred devia estar falando a verdade. Afinal, Bor havia flagrado, o golem, mensageiro da sacerdotisa, visitando-o na calada da noite. No entanto, isso não fazia mais a menor diferença para ela.
O necromante continuou a tagarelar:
— E quanto à adaga, você era a única pessoa indicada para penetrar no mosteiro sem levantar suspeita. Jamal foi a isca perfeita pra te induzir a mais esse roubo.
— Eu vou acabar com vocês dois! — Hylana berrou, descontrolada.
— Não vai, não. Acorde! — ordenou, Jirred.
Com certa violência o necromante bateu com o cajado de ossos no chão. Uma luz, feito um relâmpago, clareou o lugar cegando a todos por uns dois ou três segundos. Hylana esfregou os olhos com as mãos para poder enxergar novamente.

sábado, 6 de setembro de 2008

31. Na casa de Jirred

Era noite, a neblina estava espessa. Hylana acionou a estranha aldrava de ferro, que imitava a careta de um orc. Não teve de aguardar muito, Jirred abriu a porta com um sorriso vitorioso:
— Eu já estava pensando que você tinha esquecido do seu precioso namoradinho.
— Não amola!
— Sempre de mau humor. Entre!
Um cheiro ruim dominava o local. Dois lampiões iluminavam o aposento. Sobre uma maca, próximo a janela de venezianas fechadas, já em estado de decomposição, Hylana pôde ver um corpo com o estômago aberto. Ao lado, colocados em perfeita ordem, em cima de uma mesa, havia instrumentos cirúrgicos: injeções, bisturis, pequenos serrotes, tesouras e outros objetos mais. A sala do necromante tinha se transformado em um segundo laboratório. Com um olhar sádico nos olhos injetados, o feiticeiro perguntou, ansioso:
— Trouxe a minha adaga? — ele esfregava uma mão contra a outra em um gesto de inquietude.
— Onde está Jamal?
— Ah, o namoradinho? Vou buscá-lo depois que entregar a mercadoria.
Debaixo do manto Hylana pega o objeto tão desejado pelo necromante.
Ele levantou a mão na direção da adaga. Hylana esquivou-se e guardou-a novamente sob o manto espesso que também lhe ocultava o corpo:
— Primeiro traga Jamal e você terá o que deseja.
O necromante vacila por alguns instantes. Mas diante da atitude resoluta de Hylana resolve ceder:
— Que seja! Volto num minutinho. Um pé lá outro cá! Fique aí mesmo e não trame besteiras. Ouviu bem?
Jirred foi até o fundo do aposento, onde abriu uma porta e sumiu na escuridão. Tentando manter a calma, a garota se aproximou de uma estante junto a parede oposta de onde se encontrava o cadáver em decomposição. Observou animais mortos conservados no formol, em vasilhas de vidro: havia uma cobra vermelha com anéis prateados ao longo do corpo esguio, alguma coisa peluda de muitas patas ocupava um dos maiores frascos, e algo, que talvez fosse um sapo, parecia olhar para ela com os enormes olhos saltados.
Voltou a atenção para o defunto em cima da maca. Era um ogro. A criatura devia medir uns dois metros e meio de altura, a pele estava roxa, as tripas saltadas pelo estômago aberto. As unhas e os cabelos, em tamanho fora do comum. A garota não sabia como aquilo podia estar fedendo tão pouco.
Jirred era um louco. Hylana não conseguia compreender por que uma pessoa se tornava tão tétrica. Havia gosto pra tudo nas Terras de Lhu. Agora, não conseguiria esconder a ansiedade de esperar pelo maldito necromante e o ex-namorado traidor.