Ao se movimentar, a primeira sensação de Hylana foi de que estava em um navio. Mas não era nada disso. Quando se mexeu, balançou a gaiola de madeira em que fora encarcerada. Sua prisão devia estar a uns dois metros e meio de altura. Cordas a suspendiam rente ao teto da caverna.
Aos poucos foi se acostumando com a luz bruxuleante das tochas acesas no ambiente abafado. Um clã de criaturinhas rosadas conversava animadamente. De cócoras, quatro deles começaram a bater em tambores posicionados no chão de pedra. Lá do alto, feito um passarinho engaiolado, Hylana podia sentir o cheiro acre do trago que bebiam.
Aquelas criaturinhas deviam estar famintas. Os corpos magricelos exibiam somente ossos. Hylana percebeu que suas armas, esparramadas pelo chão, resumiam-se a facas de pedra e lanças maltrabalhadas.
— Hei, vocês! — chamou a atenção dos humanóides.
Um deles olhou para cima. Caminhou entre o grupo e cochichou algo no ouvido do provável líder. O maior de todos levantou de seu confortável acento de peles e, com certo esforço, assoprou um chifre. Os percussionistas estacaram o som de seus tambores e as outras criaturinhas emudeceram.
— Vejam, caros familiares! — disse o maior de todos que devia medir no máximo noventa centímetros de altura.
Os rosados olharam para o alto na intenção de encarar Hylana.
O líder, agasalhado com retalhos de peles surradas, continuou:
— Nosso alimento fala! Não é interessante?
— É! — responderam balançando as cabecinhas de olhos lacrimosos e dentes afiados.
— Faz tempo que o Grande Clã dos Rosados não digere algo falante. Vai ser uma delícia, não é mesmo?
— Vai! — concordaram eufóricos.
— Olhem bem para mim! — disse Hylana. — Eu sou magra. Não serei um bom prato. Podem crer, não sou apetitosa!
— Não diga isso, alimento falante! Você cheira muito bem. Já estamos preparando o fogo pra assar sua carne branca — disse o líder com tranquilidade.
Uma fogueira foi acesa. As chamas iluminaram melhor a caverna. A garota conseguiu enxergar a mochila bem próxima ao líder, juntamente com a preciosa katana.
Arrebentar aquela gaiola de madeira não seria difícil. Para falar a verdade, o cárcere estava vergando com o seu peso. O problema era dar cabo de tantos inimigos ao mesmo tempo.
Antes que o líder ordenasse a retomada da percussão, Hylana tentou uma última jogada. Não queria destroçar a gaiola e cair sobre a cabeça daqueles pestinhas sem ter certeza de que essa seria a solução derradeira.
— Posso oferecer para vocês algo muito melhor do que minha carne seca — disse a garota.
— Eu duvido! — retrucou o líder.
— Vê minha mochila? Dentro dela tem uma iguaria preciosa. Tão preciosa que para recuperá-la me arrisquei perseguindo um de vocês.
— É verdade. Ela me perseguiu feito doida! — falou o ladrão orgulhoso apontando para o próprio peito.
— Reconhecemos seu grande ato, Glup. Por isso, você é o grande homenageado dessa noite! — disse o líder, satisfeito.
Todos na caverna aplaudiram.
Hylana estava perdendo a paciência.
Assim que os aplausos terminaram, a garota desafiou:
— Abram a mochila, e todos vocês poderão saber do que se trata.
— Pegue, Glup — ordenou o líder, sem titubear.
A criaturinha rosada abriu a mochila e dela retirou o item que brilhava como uma estrela. Hylana fechou os olhos e torceu para que todos permanecessem fascinados pelo orbe. Depois de alguns minutos intermináveis, a garota levantou as pestanas. Ela não devia olhar diretamente para o objeto, do contrário sua mente poderia ser sugada! O orbe pulsava à semelhança de um coração e, de vez em quando, mudava de cor.
Naquele instante, os rosados estavam em total sintonia com o item maravilhoso. O silêncio dentro da caverna era sepulcral. Podia ser ouvido o crepitar da lenha, a respiração do clã e a palpitação sutil que o orbe emitia.
Hylana, com toda cautela possível, quebrou aos poucos as madeiras laterais da gaiola. Balançou o cárcere para os lados e quando percebeu o ângulo certo pulou em cima de várias peles empilhadas no chão.
A aventureira caminhou entre os pequeninos que não desviavam os olhos lacrimosos e grandes do objeto fascinante. Hylana parecia ter se tornado invisível, nenhuma das famintas criaturinhas queria mais saber dela.
A garota pegou sua valiosa espada e conferiu onde ficava a saída da caverna antes de recuperar o orbe roubado do feiticeiro. Por sorte, um túnel curto abria-se para a floresta quase no mesmo local em que ela havia sido capturada. Voltou ao salão da caverna, os rosados continuavam em uma espécie de hipnose coletiva. Resistindo à vontade de olhar diretamente para o objeto, orientou-se apenas pelo barulho grave e inebriante que emitia. Guardou-o dentro da mochila de forma que as mãos nuas não o tocassem.
Os pequeninos rosados começaram a esfregar os olhos e quando se deram por conta haviam acordado de um sonho.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
domingo, 17 de fevereiro de 2008
2. Na borda da floresta
O pescoço longo da montaria terminava em uma cabeça semelhante a do sapo. Os dentes do onívoro maceravam capim pacientemente. De vez em quando a cauda comprida balançava para espantar alguns insetos atrevidos que insistiam em pousar na sua pele lisa. Na ponta da cauda três ossos em formato de espinhos se destacavam. Por experiência, o animal sabia muito bem manejar aquela arma natural. Do contrário, poderia ferir a si mesmo, já que a pele de anfíbio não era tão consistente.
Com as garras de um dos pés cavava o chão. O bípede encontrou algumas minhocas. Colocou a boca no buraco e mastigou a iguaria apetitosa.
— Isso mesmo! Você tem de se alimentar! Ainda trilharemos um longo caminho antes de chegar à cidade — disse Hylana acariciando o pescoço do animal.
Era madrugada quando a garota se apossou da montaria do feiticeiro. Fazia muitas horas que viajavam. Não pararam uma vez sequer durante o dia. Suas coxas estavam doloridas, não conseguiria ir a lugar algum antes de descansar.
Hylana se acomodou na borda de uma floresta. Uma floresta que ela julgava tranqüila. Na escuridão proporcionada pelas árvores poderia se manter oculta de viajantes que transitavam na estrada velha. Por sinal, durante todo o dia, encontrara-se apenas com dois peregrinos e um comerciante.
De um pequeno bolso do lado de fora da mochila a garota comeu um pedaço de pão com presunto para aliviar a fome. Apoiada em uma grande árvore sentou-se para descansar. A montaria, depois de se empanturrar de minhocas, deitou ao seu lado.
Após o parco lanche, Hylana se atreveu a abrir a mochila. Pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas viu o brilho mágico daquele item maravilhoso! Fechou o zíper antes que ficasse deslumbrada com o poder do objeto.
Adormeceu sem sonhos, não queria pensar na morte dos pais, nem no feiticeiro traidor.
A garota acordou quando ouviu gravetos estalando no meio do mato. Colocou-se de prontidão no mesmo instante. Um pequeno humanóide correu floresta adentro furtando sua mochila.
— Pare aí! — ela ordenou, sem sucesso.
Foi à captura do ladrãozinho.
A pele rosada da criatura e o estardalhaço com que se movimentava denunciou seu paradeiro. Hylana tinha olhos de águia, e acreditem, mesmo vendada era capaz de desferir golpes mortais com sua katana.
A garota estava muito próxima de pegar o fugitivo:
— Pare! Ou não vou te dar chance de pedir desculpas!
O humanóide parou. Já não agüentava mais carregar todo aquele peso.
— Pensou que podia escapar, Pele Rosada?
A criatura abaixou as orelhas pontudas e os grandes olhos lacrimosos quase causaram pena em Hylana.
A garota sentiu algo lhe picar o ombro. Um espinho havia penetrado a carne. Logo em seguida, mais um espinho a atingiu. Dessa vez no pescoço. Percebeu o mundo rodar.
— O que está... acontecendo? — ela perguntou para a criaturinha. E caiu dura feito um pedaço de tábua nas folhas úmidas da floresta.
Com as garras de um dos pés cavava o chão. O bípede encontrou algumas minhocas. Colocou a boca no buraco e mastigou a iguaria apetitosa.
— Isso mesmo! Você tem de se alimentar! Ainda trilharemos um longo caminho antes de chegar à cidade — disse Hylana acariciando o pescoço do animal.
Era madrugada quando a garota se apossou da montaria do feiticeiro. Fazia muitas horas que viajavam. Não pararam uma vez sequer durante o dia. Suas coxas estavam doloridas, não conseguiria ir a lugar algum antes de descansar.
Hylana se acomodou na borda de uma floresta. Uma floresta que ela julgava tranqüila. Na escuridão proporcionada pelas árvores poderia se manter oculta de viajantes que transitavam na estrada velha. Por sinal, durante todo o dia, encontrara-se apenas com dois peregrinos e um comerciante.
De um pequeno bolso do lado de fora da mochila a garota comeu um pedaço de pão com presunto para aliviar a fome. Apoiada em uma grande árvore sentou-se para descansar. A montaria, depois de se empanturrar de minhocas, deitou ao seu lado.
Após o parco lanche, Hylana se atreveu a abrir a mochila. Pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas viu o brilho mágico daquele item maravilhoso! Fechou o zíper antes que ficasse deslumbrada com o poder do objeto.
Adormeceu sem sonhos, não queria pensar na morte dos pais, nem no feiticeiro traidor.
A garota acordou quando ouviu gravetos estalando no meio do mato. Colocou-se de prontidão no mesmo instante. Um pequeno humanóide correu floresta adentro furtando sua mochila.
— Pare aí! — ela ordenou, sem sucesso.
Foi à captura do ladrãozinho.
A pele rosada da criatura e o estardalhaço com que se movimentava denunciou seu paradeiro. Hylana tinha olhos de águia, e acreditem, mesmo vendada era capaz de desferir golpes mortais com sua katana.
A garota estava muito próxima de pegar o fugitivo:
— Pare! Ou não vou te dar chance de pedir desculpas!
O humanóide parou. Já não agüentava mais carregar todo aquele peso.
— Pensou que podia escapar, Pele Rosada?
A criatura abaixou as orelhas pontudas e os grandes olhos lacrimosos quase causaram pena em Hylana.
A garota sentiu algo lhe picar o ombro. Um espinho havia penetrado a carne. Logo em seguida, mais um espinho a atingiu. Dessa vez no pescoço. Percebeu o mundo rodar.
— O que está... acontecendo? — ela perguntou para a criaturinha. E caiu dura feito um pedaço de tábua nas folhas úmidas da floresta.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
1. A morte do feiticeiro
A garota saltou um barranco. Corria com a máxima velocidade que as pernas ágeis lhe permitiam. Dentro de uma mochila que levava às costas escondia um item pesado. Não ousou olhar para trás. Mas sabia que alguma coisa permanecia em seu encalço.
O sobrado de pedra de onde ela fugia estava, no máximo, distante meio quilômetro. Acima de sua cabeça, um farfalhar de asas denunciou a chegada do inimigo. Foi obrigada a desembainhar sua katana amolada.
Com a espada na mão era mais difícil correr. Tomou uma decisão: devia enfrentar a criatura. Estacou ao lado de um grande jatobá na beira da floresta. A cor amarelada do planeta vizinho, em fase minguante, iluminava precariamente a noite.
Para azar de Hylana, não era apenas uma criatura que a perseguia. E, sim, duas gárgulas que pairaram no ar. Estavam a uns quatro metros acima da garota.
Apontando um dedo ameaçador, com uma garra afiada, uma delas disse com voz grotesca:
— Responda, garota, agora! Qual o antídoto?
— Nem torturada revelaria esse segredo!
Hylana, sem demonstrar medo, as desafiou em posição de combate.
— Então sofra! — decretou a outra gárgula, voando na sua direção.
A garota era jovem, mas sabia como lidar com uma espada longa e afiada. Com maestria, ela dança ao executar seus golpes. Mostrava toda a técnica que tinha aprendido com o pai e com seu mestre.
Sangue negro espirrou da garganta de uma das criaturas que, ao cair no gramado, transformou-se em uma estátua de pedra. A outra inimiga, bem mais arisca, era difícil de acertar, avaliou Hylana.
A gárgula, dispondo de toda a agilidade que lhe foi possível, agarrou o calcanhar da garota e a derrubou. Com o baque, ela afrouxou a mão que segurava a katana. Ficou sem sua mais valiosa arma. A criatura a pegou pelos pés e voou bem alto, indo na direção da casa de pedra.
Um velho vestindo um manto roxo galopava em uma montaria do pântano. Ele apeou do animal ao ver a gárgula se aproximar. A criatura voadora manteve Hylana de cabeça para baixo. Estavam a dois metros de altura do chão.
O homem com os olhos injetados de sangue colocava a mão na garganta. Teve imensa dificuldade para falar.
— Qual o antídoto, Hylana? Diga-me! — implorou o velho, o rosto voltado para cima.
— De jeito nenhum! — disse a garota, de cabeça para baixo.
— Por quê? Por que fizeste isso? Sempre fui bom pra ti!
Ele caiu de joelhos na terra embarrada da estrada antiga.
— Não diga mentiras, feiticeiro! Você me enganou! Assassinou meus pais! — vociferou Hylana, com lágrima nos olhos.
— Tu estás enganada! Não fui... não fui eu! — o feiticeiro, envenenado, desabou no solo.
A gárgula, ao presenciar a morte do mestre, transformou-se em pedra. A criatura rachou em diversos pedaços ao cair no solo. Hylana sofreu apenas alguns arranhões quando aterrissou com grande agilidade.
Limpou o choro que inundava a face branca. Amendoados e castanhos, os olhos de Hylana eram exóticos. Sua beleza despertava o interesse dos homens e também das diversas criaturas que habitavam as antigas Terras de Lhu.
Não olhou para o feiticeiro que jazia inerte na terra embarrada. Queria partir logo, aquele lugar lhe trazia diversas recordações da infância.
Colocou o pé no estribo e acomodou-se sobre a cela da bizarra montaria. Primeiro buscou sua preciosa espada ao lado do jatobá. Depois rumou para a cidade. Lá, entregaria o item roubado ao comprador.
O sobrado de pedra de onde ela fugia estava, no máximo, distante meio quilômetro. Acima de sua cabeça, um farfalhar de asas denunciou a chegada do inimigo. Foi obrigada a desembainhar sua katana amolada.
Com a espada na mão era mais difícil correr. Tomou uma decisão: devia enfrentar a criatura. Estacou ao lado de um grande jatobá na beira da floresta. A cor amarelada do planeta vizinho, em fase minguante, iluminava precariamente a noite.
Para azar de Hylana, não era apenas uma criatura que a perseguia. E, sim, duas gárgulas que pairaram no ar. Estavam a uns quatro metros acima da garota.
Apontando um dedo ameaçador, com uma garra afiada, uma delas disse com voz grotesca:
— Responda, garota, agora! Qual o antídoto?
— Nem torturada revelaria esse segredo!
Hylana, sem demonstrar medo, as desafiou em posição de combate.
— Então sofra! — decretou a outra gárgula, voando na sua direção.
A garota era jovem, mas sabia como lidar com uma espada longa e afiada. Com maestria, ela dança ao executar seus golpes. Mostrava toda a técnica que tinha aprendido com o pai e com seu mestre.
Sangue negro espirrou da garganta de uma das criaturas que, ao cair no gramado, transformou-se em uma estátua de pedra. A outra inimiga, bem mais arisca, era difícil de acertar, avaliou Hylana.
A gárgula, dispondo de toda a agilidade que lhe foi possível, agarrou o calcanhar da garota e a derrubou. Com o baque, ela afrouxou a mão que segurava a katana. Ficou sem sua mais valiosa arma. A criatura a pegou pelos pés e voou bem alto, indo na direção da casa de pedra.
Um velho vestindo um manto roxo galopava em uma montaria do pântano. Ele apeou do animal ao ver a gárgula se aproximar. A criatura voadora manteve Hylana de cabeça para baixo. Estavam a dois metros de altura do chão.
O homem com os olhos injetados de sangue colocava a mão na garganta. Teve imensa dificuldade para falar.
— Qual o antídoto, Hylana? Diga-me! — implorou o velho, o rosto voltado para cima.
— De jeito nenhum! — disse a garota, de cabeça para baixo.
— Por quê? Por que fizeste isso? Sempre fui bom pra ti!
Ele caiu de joelhos na terra embarrada da estrada antiga.
— Não diga mentiras, feiticeiro! Você me enganou! Assassinou meus pais! — vociferou Hylana, com lágrima nos olhos.
— Tu estás enganada! Não fui... não fui eu! — o feiticeiro, envenenado, desabou no solo.
A gárgula, ao presenciar a morte do mestre, transformou-se em pedra. A criatura rachou em diversos pedaços ao cair no solo. Hylana sofreu apenas alguns arranhões quando aterrissou com grande agilidade.
Limpou o choro que inundava a face branca. Amendoados e castanhos, os olhos de Hylana eram exóticos. Sua beleza despertava o interesse dos homens e também das diversas criaturas que habitavam as antigas Terras de Lhu.
Não olhou para o feiticeiro que jazia inerte na terra embarrada. Queria partir logo, aquele lugar lhe trazia diversas recordações da infância.
Colocou o pé no estribo e acomodou-se sobre a cela da bizarra montaria. Primeiro buscou sua preciosa espada ao lado do jatobá. Depois rumou para a cidade. Lá, entregaria o item roubado ao comprador.
Apresentação
A um escritor não basta ser apenas criativo. Outros ingredientes são necessários para tornar um texto de ficção atraente aos olhos do leitor. A criatividade é um dos principais pontos de apoio de quem se lança à atividade literária, mas, sozinha, sem outros pilares de apoio, não passará da andorinha que não faz verão. Técnica, equilíbrio, visão de conjunto, domínio narrativo e, em especial, intuição – aquela capacidade para perceber o momento certo da revelação, ou de dar movimento e voz aos personagens – são ferramentas imprescindíveis, que, juntamente com a criatividade, fazem, para melhor, um escritor diferente do outro.
Duda Falcão, embora ainda em início de carreira, tem todos os predicados para o fazer literário. Além de criativo e inquieto perante as possibilidades de suas criações, domina a narrativa e controla o ímpeto dos seus personagens sem prejudicar a capacidade de efabulação, uma das marcas mais fortes de sua literatura. Com o pulso de um veterano, visualiza a trama de fora para dentro, de cima para baixo, sabendo onde pisa e onde mete a sua colher de ficcionista. E essa virtude, a de lançar sobre o movimento dos personagens uma espécie de olhar panorâmico, lhe dá a segurança necessária para desenvolver o enredo de forma harmoniosa e equilibrada, com todas as ações decorrendo no tempo certo, sem os atropelos que tiram o prazer da leitura e sem os excessos que travam a fluência da narrativa.
Em Hylana, uma história de fantasia e ação – na qual criaturas estranhas, meio gente, meio animais, falam, pensam, têm ambições e, tanto em relação ao poder quanto na vida em sociedade, têm as mesmas fraquezas e virtudes dos humanos – Duda Falcão passa por outro teste de difícil superação: a verossimilhança, exigência que, ao longo dos tempos, tem derrubado do cavalo até escritores mais experientes. Por intuição, pela prática e, em especial, por ser um profissional afeito à leitura no seu quotidiano, sabe que, para convencer o leitor da viabilidade daquilo que narra, não basta simplesmente transpor para o papel um fato crível na vida real. Para Duda Falcão, ser verossímil é muito mais, é criar um ambiente propício de forma a trazer o leitor para dentro de sua atmosfera e fazer com que ele, o leitor, a partir dessa imersão, acredite que ali tudo é possível. Duda sabe nos convencer da viabilidade existencial de suas criaturas, e isso não é pouco.
Taylor Diniz
Duda Falcão, embora ainda em início de carreira, tem todos os predicados para o fazer literário. Além de criativo e inquieto perante as possibilidades de suas criações, domina a narrativa e controla o ímpeto dos seus personagens sem prejudicar a capacidade de efabulação, uma das marcas mais fortes de sua literatura. Com o pulso de um veterano, visualiza a trama de fora para dentro, de cima para baixo, sabendo onde pisa e onde mete a sua colher de ficcionista. E essa virtude, a de lançar sobre o movimento dos personagens uma espécie de olhar panorâmico, lhe dá a segurança necessária para desenvolver o enredo de forma harmoniosa e equilibrada, com todas as ações decorrendo no tempo certo, sem os atropelos que tiram o prazer da leitura e sem os excessos que travam a fluência da narrativa.
Em Hylana, uma história de fantasia e ação – na qual criaturas estranhas, meio gente, meio animais, falam, pensam, têm ambições e, tanto em relação ao poder quanto na vida em sociedade, têm as mesmas fraquezas e virtudes dos humanos – Duda Falcão passa por outro teste de difícil superação: a verossimilhança, exigência que, ao longo dos tempos, tem derrubado do cavalo até escritores mais experientes. Por intuição, pela prática e, em especial, por ser um profissional afeito à leitura no seu quotidiano, sabe que, para convencer o leitor da viabilidade daquilo que narra, não basta simplesmente transpor para o papel um fato crível na vida real. Para Duda Falcão, ser verossímil é muito mais, é criar um ambiente propício de forma a trazer o leitor para dentro de sua atmosfera e fazer com que ele, o leitor, a partir dessa imersão, acredite que ali tudo é possível. Duda sabe nos convencer da viabilidade existencial de suas criaturas, e isso não é pouco.
Taylor Diniz
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