Hylana correu na direção da mulher e abraçou-a com força. O gesto foi retribuído. Lágrimas escorriam pelo rosto duro de Hylana.
— Mãe... Mãe é você! Você está viva! Você está viva! Isso é maravilhoso!
A sacerdotisa, depois de alguns instantes, afastou-a de si:
— Minha filha, você será recompensada por tudo o que passou.
— Estar com você é minha recompensa.
— Terá muito mais do que isso.
Hylana quis saber do pai:
— Mãe, diga que papai também está vivo!
— A história que tenho pra te contar começa pelo seu pai. Ele não teve o mesmo destino que eu —a sacerdotisa dirigiu-se até a janela. — Não foi nada fácil sobreviver nas condições em que me encontrava. Feliz dele por ter achado descanso.
A garota ficou quieta. Não quis interromper. A sacerdotisa tinha um ar sombrio, bem diferente de quando Hylana era criança.
— O rei. O inescrupuloso rei de Carmal arquitetou uma emboscada para nós. Seu pai era um mago influente, capaz de aniquilar o reino e toda sua corja. Mas antes que isso acontecesse foi assassinado. Você bem sabe que em nossa casa atearam fogo. Por sorte, minha criança, naquele dia você não estava em casa.
— Eu lembro.
— Seu pai morreu, eu consegui escapar. Meu corpo se tornou algo deformado. Uma coisa que não consigo mostrar para ninguém. Nem eu mesma consigo me olhar no espelho.
Hylana sentiu a raiva escapar daquela voz, agora muito mais intimidadora.
— Mas eu não entendo — Hylana fica ao lado da sacerdotisa na janela. — E de quem era aquele corpo que foi encontrado próximo ao de papai?
— Era o da minha irmã. Não sobrou quase nada dela, era impossível dizer de quem era o corpo. Nem você a conhecia. A infeliz teve a péssima idéia de nos visitar naquele dia maldito.
— Por que você não voltou pra me buscar?
— Não era possível, minha filha. Eu tinha de sobreviver. Tinha de fugir das garras do rei – dizendo isso a sacerdotisa mudou o tom de voz para algo que beirava a loucura.
E continuou:
— Você já tinha ingresso garantido na Ordem dos Monges Espadachins. Seu futuro estava assegurado!
Hylana sentou-se na cama, procurando compreender toda aquela história:
— Como você conseguiu se infiltrar no castelo? E ser tão influente?
— Arquitetei meu plano da melhor forma possível. Isolei-me em uma cabana na Floresta dos Desejos e aperfeiçoei minhas técnicas mágicas. Consegui demonstrar meu valor ao rei em um festival de feitiçaria branca. Fui convidada a morar no castelo e a partir de então, galguei os degraus necessários para assumir o alto posto de feitiçaria de Carmal. Tornei-me a sacerdotisa depois de muito suor e sangue derramado.
Hylana se assustou com a voz arranhada da mãe.
— O rei não quis saber quem você era?
— É claro que sim. Tive de mostrar meu rosto pra ele e para o antigo sacerdote. Nenhum dos dois foi capaz de me reconhecer, tão graves foram minhas queimaduras.
— Posso ver seu rosto?
— Preferia que na sua memória permanecesse a imagem daquela bela e dedicada mãe que você amava.
— Entendo — a garota conformou-se.
Mesmo sabendo que a sacerdotisa e a sua mãe eram a mesma pessoa, Hylana teve a sensação de que nunca mais recuperaria a mãe de sua infância, há tanto tempo perdida.
— Mãe, como foi que você me descobriu jogada no calabouço?
— Eu não queria que isso tivesse acontecido, filha! Mas aquele necromante idiota não soube fazer o que eu havia mandado.
— Por favor, me explique melhor. Não estou entendendo. Você tinha negócios com Jirred?
— Alguns. Mas isso não importa! Já não há mais motivos para você se preocupar com ele. Aquele lacaio poderia tornar-se perigoso no futuro.
— Você o matou? — Hylana arriscou um palpite.
— Meu mensageiro deu cabo dele.
A sacerdotisa esfregou uma mão contra a outra, em um movimento de ansiedade:
— Desde que cheguei por aqui, meu objetivo era acabar com a vida do rei. Vingar seu pai, entende?
Hylana não respondeu. Sabia bem o que significava vingança. Era algo vil semelhante ao ódio. Apenas conduzia para caminhos obscuros e melancólicos.
— Feitiços de proteção evitavam que qualquer um pudesse fazer mal ao rei. Mesmo eu que tenho o conhecimento de um número bem grande de magias maléficas.
A sacerdotisa caminhava de um lado para o outro do aposento:
— Então, descobri uma maneira de atingir meu inimigo. O feiticeiro Ansalon tinha o artefato que eu precisava.
Hylana, estupefata, não teve dúvida do que se tratava:
— O orbe!
— Exato. Não podia encontrar o feiticeiro e revelar que estava viva. Ansalon nunca concordaria com o meu plano. Só você poderia roubar o orbe para mim.
— Não estou acreditando no que você está dizendo! — Hylana levantou da cama, furiosa. — Você me obrigou a matar um dos poucos amigos que tinha? Não pode ser. Diga que você não fez isso comigo?
— Não queria que você o matasse. Apenas desejava o orbe. Compreenda meus motivos, filha! — a sacerdotisa foi incisiva com as palavras.
Hylana ficou com medo daquele olhar penetrante. Limpou mais lágrimas do rosto.
— Não bastava que tivesse roubado o orbe — irritou-se, quase gritou descontrolada. — Você também quis que eu roubasse a adaga de mármore. Por quê? Por que me usou dessa maneira? – Agora Hylana enxergava mais claramente a situação que fora obrigada a viver.
— Minha criança, você não foi usada. Você participou ativamente da vingança do seu pai. Pense nisso!
— Por que você não me procurou? Se tivesse me dito tudo o que está dizendo eu teria ajudado!
— Será? Veja o escândalo que está fazendo! Não podia arriscar adiar nossa vingança. E afinal, você não corria risco algum de vida assaltando aqueles que confiavam em você. Nem Ansalon, nem Tarila teriam feito qualquer coisa que pudesse machucá-la. Foi tudo muito bem planejado! Não chore! Siga meu exemplo, seja forte!
Hylana limpou as últimas lágrimas dos olhos marejados e vermelhos.
— Isso, minha criança. Um dia essa fonte seca!
A sacerdotisa mal respirava entre uma frase e outra:
— Deixe eu te revelar de que forma acabei com o assassino do seu pai. É a melhor parte da história. Não foi muito difícil manipular o poder do orbe. No passado, o próprio Ansalon já havia me ensinado algo sobre o artefato.
Hylana voltou a sentar-se na cama, de tão estática que estava parecia um boneco. A decepção em seu rosto seria evidente pra qualquer pessoa, menos para a exaltada sacerdotisa que continuava a contar sua história de vingança:
— Jirred entregou o artefato para Gorimas, o golem. Na mesma noite em que recebi o orbe usei seu poder. Durante a madrugada, quando todos dormem, nossos corpos ficam desprotegidos, sabe? Nossos espíritos vagueiam em um plano astral. É nesse momento que um dos poderes do orbe pode ser usado. Com o conhecimento necessário, coloquei minhas mãos sobre a bola de cristal e deixei que meu espírito fosse sugado por ela. Primeiro, procurei por Enya, a mulher do rei. Viajando no plano dos sonhos, encontrei-a em um banco, admirando o jardim do palácio. Está acompanhando? – a sacerdotisa sacode a garota. - Você parece tão desligada. Anime-se, Hylana, esse é o momento da nossa vitória!
A mulher deu uma gargalhada que retumbou pelo aposento e continuou seu relato:
— Nos ouvidos de Enya despejei todos os tipos de caraminholas. Envenenei sua mente fraca com sentimentos daninhos. Fui tão bem sucedida, que no dia seguinte, a mulher não levantou da cama. Tinha ficado doente! Há, há, há. Bem feito. A rainha nunca gostou de mim. Teve o que mereceu. As vezes, terei de voltar aos pesadelos dela para mantê-la no mesmo estado vegetativo. Confesso que me divirto com isso. Agora que já tenho a adaga, facilmente poderia finalizar com a vida daquela inútil. No entanto, acho que a deixarei sofrendo mais um pouco em minhas mãos, talvez eu encontre algo interessante naquela mente primitiva. Talvez...
Hylana gostaria de ter interrompido a mãe, aproveitando o momento da pausa no relato, mas não conseguiu dizer nada.
— Quanto ao rei, eu sabia que não seria tão fácil. Precisava acabar com a vida dele para assumir o trono! Só deixá-lo doente não era suficiente. Para completar minha vingança, faltava a adaga de mármore violeta, ou se quiser chamá-la pelo verdadeiro nome: Adaga dos Sonhos. Ontem, o patético Jirred entregou-a para mim. De madrugada, sentei diante do orbe e me concentrei. Meu espírito foi sugado pelo artefato juntamente com a adaga, um dos poucos objetos capazes de matar alguém no mundo dos sonhos. O rei não conseguiu opor resistência alguma. Achou que estava tendo um pesadelo qualquer. Furei seus olhos, arranquei o coração do peito e decepei a cabeça. Foi com prazer que o vi sentindo dor. No dia seguinte, os médicos disseram que a causa da morte era o mau funcionamento do coração. O corpo do rei estava intacto, sem demonstrar qualquer uma das dilacerações que eu lhe infringira enquanto dormia. O mundo dos sonhos tem as suas próprias regras. Realizei o assassinato perfeito. Não existe nenhuma pista que possa me incriminar. A partir de agora, governarei Carmal. Sou a pessoa mais indicada para isso e respeitada pela maioria dos nobres. Mesmo a corte de sábios terá de aceitar. Vou manter o pequeno Felipe, filho do rei, sob minha tutela. Até o dia em que não precisaremos mais dele. O que você acha?
Hylana não respondeu. Estava atônita com todas aquelas revelações.
— Entendo seu silêncio, minha criança. Você ainda é jovem para compreender certas atitudes. O importante é que estamos novamente juntas. Carmal vai mudar, preciso de uma pessoa que saiba lidar com subalternos e soldados. Faremos uma festa para apresentá-la a aristocracia. Nesse mesmo dia, vou nomeá-la capitã da guarda real. Treinaremos um verdadeiro exército, a partir de então. Não é uma maravilha?
Hylana fez que sim com um movimento vagaroso da cabeça.
A sacerdotisa, então colocou uma das mãos sobre o ombro da filha:
— Lembre-se, Hylana, seja sempre fiel a sua mãe. Nada lhe faltará!
O rosto da garota foi acariciado por uma luva de tecido fino:
— Agora vou deixá-la só para que possa descansar desses dias agitados. Logo teremos muito para conversar e planejar.
Hylana ficou imóvel. A sacerdotisa saiu do quarto. A garota não sabia o que pensar ou que atitude tomaria para organizar sua vida tão desequilibrada. Queria se livrar de todos os pensamentos que invadiam sua cabeça. O dia de amanhã, nas Terras de Lhu, se revelava como algo de pura incerteza.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
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6 comentários:
E chegamos ao final! Meus parabéns, Duda. Foi tudo muito bem construído e interessante desde o começo. E mais: a curiosidade continua! Quero acompanhar o que ainda vem pela frente. Abraço!
Sabe, às vezes (bastante vezes) as estórias começam boas e vão caíndo de nível ou acabam ruins. Mas Hylana, ainda bem, é uma excessão. Do começo ao fim com um enredo apaixonante para os amantes de Fantasia Medieval. A estruturação de fácil e dinâmica leitura e a forma como cada capítulo corre intenso e termina deixando o leitor curioso e ansioso pelo próximo fazem das Terras de Lhu uma leitura muitíssima agradável.
Parabéns pelo trabalho, Duda, e que continue assim, sempre.
Olá, Diógenes! Que legal que você gostou. Não deixe de passar aqui no início de dezembro, pois terei novidades. Ah, não esquece de me avisar quando o seu blog estiver no ar!
Um abraço!
Olá, Mestre! Vou tentar manter o mesmo ritmo nas próximas histórias! Em dezembro volta aí! Tem mais Terras de Lhu saindo do forno, he, he.
Um abraço!
Interessante ,vc escreve a quanto tempo ´fantasia medieval?
Pq notei que vc jah temuma técnica boa ,sabe manejar as personagens....
PS:Fiquei tentando imaginar a cara deformada da Sacerdotisa,vc deveria continuar essa estória e descrever o rosto dela ..rs
http://bessaforbidden.blogspot.com/
Oi, Alessandra!
É a primeira vez que você vem por aqui. Gosto de trocar uma idéia com os leitores do blog. Obrigado pelo elogio, ainda estou desenvolvendo meu estilo próprio. Escrevo a alguns anos, não só fantasia mas também histórias de terror e aventura. Vou dar continuidade a história da Hylana e certamente revelarei a face da sacerdotisa. Porém, devo confessar que isso vai demorar, prefiro ir apresentando os personagens aos poucos para ir criando uma atmosfera de curiosidade. Desde já te convido para semana que vem voltar a acessar o blog, pois terei uma história nova que se passa no cenário das Terras de Lhu - A noite do dragão. Ah, e se quiser conhecer outro trabalho meu acesse o site da Editora Khontos. Lá tenho um conto que se chama Mausoléu - de terror. Sempre que puder deixe sua mensagem no blog. Valeu, um abraço! Não vou me esquecer da sua dica!
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