O clarão que se dissipou do cajado tinha lhe cegado por uns instantes. A adaga já não estava mais em seu poder. Esfregou os olhos para tentar enxergar novamente. Quase ao mesmo tempo de recuperar a visão um barulho grave anunciava a queda de algo pesado no chão.
A primeira coisa que viu diante de si foi Jamal. A adaga de pedra, o grande objeto de desejo do necromante, estava fincada no pescoço do bárbaro que não conseguia se desvencilhar das correntes e das algemas. O sangue escorria da sua garganta aos borbotões. A expressão em sua face era de terror. Hylana, então se ajoelhou ao lado dele na tentativa de ajudar. Do chão juntou a chave de ferro que poderia abrir o cadeado das correntes, mas antes que pudesse fazer algo, sentiu uma mão pegajosa e forte tocar no seu ombro.
— Acabe com a maldita! — Jirred gritou.
Histérico, e com os cabelos desgrenhados, o necromante apontava para a garota. Antes de saber o que havia lhe pego pelos ombros, Hylana foi arremessada contra uma das paredes da sala. Quase desmaiou de tanta dor. Colocou a mão na cabeça e sentiu sangue escorrendo de um corte. O peso de um caminhar, no centro da sala, lhe chamou a atenção. O ogro que minutos atrás não passava de um defunto dirigia-se a passos lentos, mas decididos na direção dela.
A arte da necromancia se prestava para aquele tipo de coisa medonha: ressuscitar os mortos. Na prateleira, ao lado de onde Hylana tinha se estatelado, as criaturas mortas dentro dos vidros com formol se debatiam animadas por aquela força estranha que emanou do cajado de ossos. A garota levantou-se e sacou sua inseparável katana:
— Fique aí mesmo, ogro. Ou terei que te mandar de volta pras trevas. Tenho certeza de que você não vai querer voltar pra lá, não é mesmo?
Jirred, ensandecido, gargalhou:
— Ele só obedece a mim, garota estúpida! Morra, maldita, e talvez eu também te transforme em uma escrava perfeita.
Ao escutar aquela ameaça, um arrepio de medo e nojo percorreu o corpo de Hylana. O necromante correu até o local onde padecia Jamal. Jirred arrancou a adaga do pescoço do bárbaro, sem qualquer cuidado e disse despreocupado:
— A morte é apenas o princípio, meu filho. Não tema! Voltaremos a nos encontrar.
Afogado no próprio sangue, Jamal respirou pela última vez.
Ao mesmo tempo, o ogro-zumbi se aproximava de Hylana e com um soco no peito a derrubou no chão. Surpreso, o zumbi viu a katana enfiada em sua garganta. A garota era tão rápida com sua arma que o ogro não havia percebido imediatamente o golpe. A espada espetada na criatura diminuía seus movimentos e causava um pouco de dor, mas nada além disso. Não era tão fácil matar uma coisa que já estava morta. Somente a decapitação acabaria com o ser grotesco definitivamente. Hylana sabia disso, já havia escutado histórias terríveis sobre os mortos-vivos que caminhavam durante a noite nas vastas Terras de Lhu.
Voltou sua atenção para o momento presente ao ouvir batidas fortes na entrada da casa e também ordens de invasão. A porta foi arrombada com um baque. Ciclopes invadiram o lugar. Atrás de dois batedores surgiu um famoso elfo de pele cinza, capitão da guarda real de Carmal. O necromante, sem esperar intimações, fugiu pela mesma porta de onde havia buscado Jamal, a adaga de mármore estava em seu poder.
— Peguem esse fora-da-lei! — ordenou o capitão Rankgor.
A arte da necromancia era proibida em Carmal. Mesmo assim, as autoridades, muitas vezes, faziam vista grossa para esse delito. Talvez os guardas houvessem descoberto mais crimes de Jirred para terem invadido sua casa-laboratório de forma tão intempestiva.
Ciclopes foram no encalço daquele desprezível. Outros quatro se jogaram com martelos e machados sobre o ogro-zumbi. Sangue negro saltou do corpo do servo de Jirred quando foi decapitado pelos guardas.
Hylana viu o capitão Rankgor agachado, a mão analisando o pescoço de Jamal. A primeira reação dela foi fugir, não queria ser presa. Porém, antes que pudesse concretizar a fuga, os guardas restantes já estavam colocando algemas em seus punhos.
— Tragam-me o necromante! — Rankgor ordenou aos ciclopes que haviam eliminado o ogro-zumbi.
Os guardas correram em direção à porta por onde Jirred havia escapado. O capitão se aproximou de Hylana. Depois da morte do zumbi, somente o barulho sinistro das criaturas se debatendo dentro dos vidros de formol podia ser escutado.
— E você, quem é? — Rankgor perguntou a ela.
— Sou Hylana — respondeu depois de um momento de hesitação.
— Ah, Hylana. Eu sei quem é você. Nossa primeira suspeita de ter dado cabo do velho Eliseu.
— A primeira?
— Exato. Já tínhamos descartado a possibilidade de você ter ajudado o tal Jamal na concretização do crime. No entanto, sua presença aqui pode me fazer mudar de idéia.
Hylana ficou surpresa com aquela novidade. Jamal tinha assassinado Eliseu. O banguela era uma figura tão sem importância para ela que não tinha dado conta de fazer essa associação. Mas agora se tornava óbvio. Ela imaginava por quê. Eliseu era um dos poucos que poderia desmascarar a imagem que ela idealizava do bárbaro. Antes que desse com a língua nos dentes, Jamal acabara com ele. Era essencial para a concretização do roubo da adaga de mármore que Hylana continuasse confiando cegamente no bárbaro.
— Não tenho nada a ver com isso, capitão. Não conhecia esse lado obscuro do meu ex-namorado. Nunca soube de crime algum dele dentro das jurisdições de Carmal.
O elfo cinza demonstrava no semblante que não acreditava nela. Desviou o olhar pra o corpo estendido de Jamal:
— É uma pena que não poderemos jogá-lo em uma prisão ou torná-lo diversão na arena das feras. Nesse instante, ele já dorme no berço das trevas!
Hylana sentiu-se profundamente deprimida. Por que as coisas tinham de terminar daquele jeito?
— Foi você quem o matou? — perguntou de forma direta e seca, Rankgor.
— Não. Foi o próprio pai. O necromante.
Aquela era a verdadeira resposta. A luz emanada do cajado de ossos precipitou a ação de Hylana. Foi por acidente que ela atingira a adaga no pescoço de Jamal.
— Talvez você possa nos ajudar a montar algumas partes do quebra-cabeça que ficaram sem resposta.
— Não sei no que poderei lhe ser útil.
Hylana não podia contar toda a história. Se falasse sobre a adaga de mármore, com certeza, seria entregue à lei dos monges espadachins, e o código de leis deles era rígido.
— Você parece reticente, garota. Desde já poderia ter ficado sem essas algemas — blefou Rankgor para ver a reação de Hylana.
A garota permaneceu em silêncio feita uma estátua de bronze.
- Preciso que colabore. Uma noite no calabouço e você dirá toda a verdade. Levem-na — ordenou o capitão.
Antes de sair da casa do necromante, Hylana escutou um dos ciclopes relatando que Jirred havia escapado por uma saída secreta. De certo o necromante seria caçado pelas ruas de Carmal como se fosse um rato.
domingo, 21 de setembro de 2008
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2 comentários:
Duas semanas sem vir aqui e tanta coisa aconteceu! Muito bom, como sempre, Duda!
abraço
Oi, Diógenes. Tive a intenção de deixar as coisas mais rápidas no fim. Dar uma sacudida na história, he, he. Falta pouco pra terminar, mas ainda tenho algumas surpresas.
Valeu pela presença!
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